Segundo levantamento realizado pelo Ministério Público Estadual com base em dados do Instituto Federal Fogo Cruzado, mais da metade dos fechamentos de escolas na região metropolitana do Rio são causados por conflitos onde não há envolvimento de agentes estatais. Para mães e pais que moram em alguns pontos da cidade do Rio de Janeiro, é impossível garantir o acesso de seus filhos à escola devido ao medo e à violência que podem encontrar durante o caminho.
Um estudo inédito do Ministério Público mostra que 66% dos tiroteios próximos de instituições de ensino no Rio são causados por confrontos entre grupos armados, enquanto 34% das suspensões escolares são causadas por investigações policiais.
Márcio (nome fictício), 36 anos, saiu de casa numa quarta-feira para dar sua primeira aula como professor concursado na Câmara Municipal do Rio. Fiquei preocupado em não chegar atrasado e em como seria a interação com os alunos. Mas ao chegar à escola, no Complexo da Maré, se deparou com uma cena atroz: duas cabeças deixadas na porta da escola. O choque daquele primeiro dia nunca lhe saiu da memória. Ele leciona no mesmo local há cerca de oito anos. E a violência que atravessa o caminho da educação no conjunto de favelas, e em grande parte da cidade, está longe de acabar.
Segundo apuração do GLOBO, só no Marais as escolas estaduais e municipais tiveram que suspender as aulas por 14 dias entre fevereiro e o final de maio deste ano devido ao conflito armado. Isso corresponde a aproximadamente 18% dos anos letivos no período analisado. Números maiores: Só na semana passada, mais de 40 instituições de ensino da região ficaram três dias sem aulas após uma operação da Polícia Militar.
Já existem 368 escolas públicas em toda a cidade que tiveram de fechar durante pelo menos um dia até ao final de maio devido a operações e violência armada. A maior parte deles (346) são das redes municipais, mais 21 que no mesmo período do ano passado. A única unidade da Cidade de Deus, na Zona Oeste, teve aulas suspensas 17 vezes este ano devido a acidentes.
Esta é uma peça que tem muitas influências. Um professor que dá aulas do 6º ao 9º ano em Malé disse ter visto alunos com vários sintomas de estresse pós-traumático devido ao conflito constante.
— Alguns estudantes vomitam, têm ataques de pânico e choram durante a cirurgia. E não há muitos deles. Um dia um deles se jogou no chão e começou a gritar: “Helicóptero, helicóptero!” Mas não havia nada – lembra ele.
O Colégio Estadual Professora Sônia Regina Scudese Dessimoni Pinto, em Brás de Pina, não muito longe do Rio, foi forçado a fechar por 12 dias até o final de maio devido a um conflito armado. Foi a segunda escola estadual que mais fechou durante a investigação. Há pelo menos duas outras instituições educacionais privadas na rua onde está localizado. A manicura Carla, 37 anos, tem um filho que estuda em um deles. Nos dias de filmagem, diz ela, a escola paga por ausências e envia atividades que podem ser feitas em casa, mas a ansiedade continua.
— Não sabemos quando vai acontecer ou o que vai acontecer. Vivemos em comunidades onde o crime organizado é desenfreado. É por isso que muitas vezes prefiro que o meu filho não vá à aula. Especialmente porque eu estava me colocando em perigo quando o peguei na escola. Um dia, houve um tiroteio durante a hora do almoço e todos tiveram que evacuar para a escola. Ele se lembra.
De acordo com o psiquiatra infantil Gustavo Estanislau, crianças e adolescentes que vivem em áreas afetadas pelo conflito armado experimentam problemas de estresse e ansiedade que afetam diretamente o processo de aprendizagem.
— A violência representa uma alteração da rotina. Este estouro cria um sinal no cérebro que coloca o corpo em alerta. Todo esse processo gera um enorme consumo de energia. Esse custo significa que os alunos se sentem mais cansados e têm dificuldade em se concentrar. As crianças que estão mais estressadas tendem a ter maior ansiedade. Neste caso, explica o psiquiatra, ao focar as preocupações no que acontece na escola ou com os pais, eles também se afastam dos locais de aprendizagem.






